
Hoje, apeteceu-me pintar as unhas.
Não sei bem quando começou a minha identificação com uma identidade de mulher que não pinta as unhas. Pondo em palavras honestas: não sei bem quando começou o meu desdém por essa prática. Talvez tenha surgido por volta da mesma altura em que comecei a rejeitar as saias, a maquilhagem, o cor-de-rosa. A ideia de pintar as unhas – ou de usar saias, ou maquilhagem, ou cor-de-rosa – parecia-me tão distante da minha identidade como mulher como a ideia de usar uma burca. “É para outras mulheres”. Mulheres como eu, mas mulheres nada como eu.
E não era por simplesmente não gostar. Porque se fosse por simplesmente não gostar, a recusa dessas práticas em mim própria não teria sido acompanhada pela ridicularização das mulheres que o faziam. Pela ridicularização das raparigas que passavam horas no salão de beleza, das raparigas que iam à casa-de-banho a meio da aula de Fisicó-Química e voltavam com a cara num tom mais alaranjado do que antes. Se tivesse sido por simplesmente não gostar, não teria entrado na troça que se fazia a essas mulheres.
Terá sido nessa altura a última vez que pintei as unhas. E não o fiz por desejo, foi por obrigação: para uma peça de teatro para a escola. Passei talvez três dias com o verniz. Sendo honesta, não odiei a visão das pontas dos meus dedos coloridas. O que eu odiava não era a estética de ver as minhas unhas pintadas.
O que eu odiava era a expectativa de que eu, enquanto mulher – na altura, enquanto rapariga – deveria gostar de pintar as unhas. O que eu odiava era a imposição de práticas de feminilidade baseada na beleza que a sociedade colocava sobre as mulheres – numa altura em que eu nem saberia interpretar a frase que acabei de escrever. E a ridicularização das mulheres que o faziam vinha de um sentimento de desdém por elas aceitarem essa imposição que eu recusava.
Na minha conceção de adolescente, a minha identidade como mulher era o mais distante possível da ideia pré-concebida da imagem da mulher segundo os papéis de género impostos pela sociedade. Na minha conceção de adolescente, ser feminista (numa altura em que ainda nem usava essa palavra) era recusar a feminilidade. E, pior, era ridicularizar a feminilidade.
“Not like other girls.”
Entretanto, as saias já foram perdoadas. A maquilhagem já foi perdoada. O cor-de-rosa já foi perdoado. E, no processo de perdão dessas expressões de feminilidade tradicional, percebi que a sua ridicularização é muito mais anti-feminista do que a sua prática.
A ridicularização daquilo que é tradicionalmente considerado feminino está muito perto da conceção da mulher como inferior. Se a mulher é inferior, aquilo que se associa às mulheres é inferior, as práticas de expressar a feminilidade são inferiores. A ridicularização da feminilidade é considerá-la inferior e, ao mesmo tempo, é inferiorizá-la ainda mais.
A minha identidade como mulher não depende da forma como me expresso visualmente – mas a forma como me expresso visualmente está relacionada com a minha identidade como mulher. E, mais importante ainda, a minha identidade como mulher está relacionada com a minha conceção do que é uma mulher – e com o que eu achava que eram formas válidas de ser mulher. Com a minha arrogância adolescente em achar que há formas válidas e formas inválidas de se ser mulher – e que a forma inválida é aquela que expressa a feminilidade tradicional.
Não há formas válidas e formas inválidas de ser mulher. Não há formas válidas e formas inválidas de expressar a identidade – como mulher ou como outro género qualquer.
Na minha conceção de adulta, ser feminista (e agora uso muito essa palavra) é não julgar as outras mulheres pela forma como se expressam – com feminilidade ou sem.
Na minha conceção de adulta, ser feminista é expressar-se como bem apetece.
E, hoje, apeteceu-me pintar as unhas.
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