Chamar à atenção

Recentemente, dinamizei uma atividade de jogos narrativos num evento.

Para quem não sabe, um jogo narrativo é um jogo em que o propósito não é ganhar, mas sim contar uma história em conjunto. É um jogo cooperativo e colaborativo, em que uma pessoa ocupa a posição de Mestre de Jogo, com as funções de monitorizar as regras do jogo e descrever os cenários da história. As outras pessoas interpretam as personagens dentro da história e vão tomar ações para interagir com as outras personagens e com os cenários.

Numa das sessões, fui Mestre de um jogo simples e curto para um grupo de amigues que continha uma rapariga e quatro rapazes, um dos quais era namorado da rapariga.

Sendo um jogo cooperativo, é normal que as ações de cada personagem sejam comentadas pelas outras pessoas no grupo, tentando chegar a um consenso que leve o grupo a uma satisfatória conclusão da história.

No entanto, ao longo da sessão, notei um comportamento repetido: sempre que a rapariga expressava a ação que queria que a sua personagem tomasse no jogo, o namorado intervinha, num tom de voz algo agressivo:

Não vais nada fazer isso! Vais é fazer [inserir ação que ele achava melhor].”

Isto aconteceu constantemente. Mesmo quando a personagem dele ficou incapacitada (incluindo não poder falar), continuou a querer controlar as ações da personagem da namorada.

Nunca o fez com nenhum dos amigos. Os amigos nunca o fizeram com ninguém. Ela nunca o fez com ninguém.

De todas as vezes, ela não parecia incomodada com o comportamento dele. Mas, de todas as vezes, mudava a sua ação para o que ele tinha sugerido. Nunca manteve a sua ideia original. Mesmo quando tanto eu como os amigos encorajámos a sua ideia como sendo uma boa opção.

A vontade dela vinha sempre secundária à vontade dele.

A certa altura, não aguentei mais. Ele voltou a exclamar: “Não faças isso! Faz (…)”. E exclamei eu, interrompendo:

“Deixa a rapariga escolher o que quer fazer!”

Tentei manter um tom de brincadeira, mas acredito que a minha exasperação tenha passado. Ele calou-se. Baixou os olhos para a mesa. Mal abriu a boca o resto da sessão (que, digamos, foi só mais 10 minutos).

Como se diz na gíria, amuou.

O resto do grupo continuou como se nada fosse, mas a rapariga ficou preocupada a olhar para o namorado. “Eu quero ir curá-lo, para ele acordar e me ajudar a decidir o que fazer”, disse-me ela quando lhe perguntei a próxima ação. “Ok”, respondi. “Tu gastas a poção de cura e ele acorda.”

O que achas que devo fazer?“, perguntou ela ao namorado. “Ajuda-me a decidir o que fazer.”

Esta rapariga, que até ao momento tinha tido a iniciativa de fazer várias coisas – ainda que imediatamente criticadas pelo namorado – viu-se, a partir dessa altura, na necessidade de acarinhar o ego ferido do rapaz por ter sido chamado à atenção.

Na minha frustração, ao vê-la a ter a sua autonomia controlada pelo namorado, tentei ajudá-la. Mas, da forma que o fiz, apenas lhe criei mais trabalho emocional. Coloquei-lhe nos ombros a responsabilidade de tomar conta do amuo.

De forma a apaziguar os sentimentos que a minha ação criou no seu namorado, esta rapariga – até ao momento criativa e proativa – viu-se na necessidade de ocupar uma posição subserviente, dominada, incapaz de fazer qualquer ação sem a opinião dele.

E isso fez-me pensar. Fiz bem? Fiz mal?

Por um lado, não fazer nada seria contra os meus princípios. Deixar que este tipo de comportamentos passasse seria perpetuar uma cultura em que é legítimo e permitido que uma pessoa constantemente critique e controle as ações de outra pessoa.

Uma pessoa que, ainda por cima, é sua namorada – que é suposto ser uma das pessoas que mais apoiamos, mais encorajamos, mais gostamos.

“É só um jogo”, dizem as pessoas que ainda não sabem que os jogos refletem, produzem e reproduzem cultura. “Não é a vida real” é o comentário de quem ainda não entende que um jogo é tão real como uma reunião de trabalho. Que é nestas (e noutras) interações sociais que negociamos o que é aceitável e o que não é.

E, para mim, não é aceitável este tipo de comportamento. Um comportamento que exemplifica violência no namoro.

Portanto, a dúvida que me assola não é se deveria ter agido, mas sim como poderia ter agido. Numa situação semelhante – e, no meu trabalho, poderei vir a estar mais vezes em situações semelhantes – qual seria a melhor forma de atuar?

Fiz bem? Fiz mal?

Ao conversar com amigues sobre esta situação, um sábio amigo sugeriu-me o que teria feito: parar o jogo, chamar o rapaz à parte, explicar-lhe que, intencionalmente ou não, estava a prejudicar a namorada, e que na minha mesa não aceito esse comportamento. Seria uma chamada de atenção, também, mas evitando que o rapaz se sentisse humilhado em frente ao grupo e, portanto, evitando frustrações e amuos. Quem sabe se, com uma conversa calma e adulta, ele até não poderia ter-se apercebido do erro das suas ações, numa espécie de epifania.

Não nego que esta teria sido uma abordagem mais empática para com o rapaz. Mas admito que, na altura, ele – o agressor nesta interação – não estava na minha lista de prioridades. E talvez por isso esta opção nem me tenha passado pela cabeça.

É uma abordagem que vou manter na minha lista de opções, para possivelmente usar em situações futuras. Mas falta-lhe algo que eu considero muito importante: o efeito que tem (ou não tem) no grupo de amigos.

Porque chamar o rapaz à parte e falar com ele em privado é uma excelente abordagem para ele, mas para os amigos que estavam a assistir ao seu comportamento, nada faz. Para os amigos que não comentaram o seu comportamento, nada faz. Para os amigos que provavelmente acham normal e aceitável o seu comportamento, nada faz.

É importantíssimo desnormalizarmos estes comportamentos. Deslegitimar. Não é aceitável que isto aconteça e quem o vê a acontecer precisa de o saber. Não só é importante parar o comportamento de uma pessoa individual, como é também essencial demonstrar, a quem o presenciou, que esse comportamento não é admissível.

Especialmente a ela.

É importantíssimo – é, na minha opinião, a dimensão mais urgente de toda esta situação – fazer questão que ela veja, que ela note, que ela perceba que o comportamento do namorado não é legítimo.

Não digo que a minha abordagem tenha tido esse efeito – possivelmente ela só achou que fui rude. O comportamento apaziguador que adotou sugere que ela sente que é essa a dinâmica deles. Normalizou. Legitimou. “Ele é assim”. “Ele não faz por mal”. “Ele só me queria ajudar”.

Foi por ela que a exasperação se sentiu no meu tom de voz.

Foi por ela que o meu sangue ferveu e não aguentei mais sem dizer nada.

Foi por ela que chamei a atenção.

E é por todas as pessoas como ela que continuarei a chamar à atenção.

Faço bem? Faço mal? Não sei.

Pode ser que, com o tempo, com mais pessoas a chamar à atenção, com mais pessoas a dizer, a mostrar, a explicitar que aquele comportamento não é aceitável, que ela perceba. Quem sabe, até, que ele perceba.

Mas, acima de tudo, que pessoas que estão em relações onde são criticadas, ridicularizadas, diminuídas, controladas, percebam que isso é violência. E a violência não é aceitável.

Chamemos à atenção.